0

Artigos

ARQUEOLOGIA FORENSE E O PAPEL DO ARQUEÓLOGO NA INVESTIGAÇÃO CRIMINAL

A Arqueologia é uma ciência que procura compreender o passado através da escavação e análise dos restos materiais das sociedades humanas. Além do conhecimento de Geologia, os arqueólogos possuem uma gama de práticas especializadas que são diretamente aplicáveis aos contextos forenses, sendo os especialistas em "leitura" de paisagens e meios naturais.

Mas o que vem a ser a Arqueologia Forense?

A Arqueologia Forense utiliza estes conhecimentos científicos, métodos e técnicas, com o objetivo de revelar a conjuntura, cronologia de assassinatos e locais de ocultação de cadáveres a partir de investigações criminais. Os arqueólogos forenses trabalham em circunstâncias como catástrofes naturais, acidentes aéreos, localização e escavação de valas comuns, em países em situações de conflito, casos de pessoas desaparecidas, cronotanatologia, entre outros. Outras áreas como Odontologia, Química, Biologia, Geologia e Antropologia estabelecem uma relação de interdisciplinaridade, com procedimentos de campo e laboratório, nos quais as evidências arqueológicas podem ser apresentadas como prova em tribunal (HUNTER et al., 1995). O trabalho difere-se da Antropologia Forense, que procura responder a questões como: os restos mortais são humanos? Eles representam quantos indivíduos? Qual o intervalo de tempo desde a morte? Os indivíduos podem ser identificados? Quais foram a causa e o modo da morte? (Monteiro da Silva, 2012).

O uso da Arqueologia no contexto forense começou na América do Sul, na década de 1980, para a investigação de desaparecidos em países como a Argentina e o Chile. No final dos anos 90, uma equipe de arqueólogos e antropólogos foi empregada para ajudar na investigação de valas comuns do conflito dos Balcãs. Os corpos recuperados foram analisados para encontrar provas de crimes de guerra, como também para estabelecer a identidade dos cadáveres.

As técnicas arqueológicas só recentemente têm sido utilizadas em cenas de crime. No Reino Unido, no início dos anos 90, a polícia aplicou esses conhecimentos em casos relevantes, como a escavação do jardim dos assassinos em série Fred e Rose West, para recuperar os restos enterrados de suas vítimas.

E o que um Arqueólogo Forense faz?

Os arqueólogos forenses são peritos na escavação de sepulturas de objetos, cadáveres, e esqueletos, utilizando ferramentas e conhecimentos semelhantes aos de numa escavação arqueológica. Registram e preservam o que for encontrado em todas as camadas do local e investigam a taxa de decomposição de diferentes estados e ambientes, remanescentes de um corpo carbonizado, esqueletizado, partes humanas como membros e órgãos, e cadáveres de desastres de massa. A investigação arqueológica é aplicada de modo a maximizar a quantidade e a qualidade de informações descobertas em trabalho de campo.  

O estudo e a perícia dos itens encontrados são feitos com técnicas como estratigrafia, levantamento e fotografia aérea. A datação por carbono pode determinar se o local da sepultura é recente ou antigo. Dentro dessas técnicas podemos ter a localização corpos, relação entre a sepultura e outros elementos enterrados (por exemplo, objetos pessoais) e conhecimento dos processos deposicionais de corpo no solo, ou tafonomia. As técnicas de localização e escavação de restos humanos incluem: identificação e interpretação de alterações na vegetação que possam estar associadas a perturbações de um enterro clandestino, conhecimento de geologia e do solo para análise dos efeitos do ambiente nos restos humanos, técnicas de geolocalização, experiência em escavação,  além do correto processo da cadeia de custódia.

E qual a importância desse profissional?

A morte é fenômeno complexo e deve ser compreendida em perspectiva multidisciplinar. O trabalho do Arqueólogo Forense com outros profissionais ajuda não só a visão biológica e a jurídica, mas também os aspectos sociais e humanitários. No entanto, o trabalho ainda não possui reconhecimento e profissionais capacitados para atuação nas cenas de crime. Segundo o arqueólogo Sérgio Monteiro da Silva, do Museu de Arqueologia e Etnologia (MAE) da USP, “os peritos recolhem as provas mas ignoram outras características no local do crime que poderiam esclarecer os casos, tais como a posição dos ossos, profundidade da cova e processos de degradação, entre outros”. Um caso significativo que teria solução mais eficaz seria o das vítimas do Francisco de Assis Pereira, o Maníaco do Parque (SP, 1998), uma vez que a Arqueologia Forense também aprimora os exames de corpo de delito nos locais de crime não preservados.

Referências Bibliográficas:

AGRA, Inara Cerqueira. Antropologia e Arqueologia Forense: uma revisão integrativa. Fundação Universidade Federal de Rondônia - Departamento de Arqueologia. Porto Velho, 2014.

DUDAY, H, Guillon. Understanding the Circumstances of Decompositions When the Body is Skeletonized, 2006.

ETENORD, Rodrigo. Arqueología forense. In: forensicsciences, 2012. 

FUNARI, P; Zarakin, A; Reis, J. Arqueologia da repressão e da resistência – América do Sul na era das ditaduras (décadas de 1960 – 1980). São Paulo: Anablume; Fapesp, 2008. 

NISZ, Charles. Curso na Academia de Polícia combina Arqueologia e Criminalística. Agência USP de Notícias, 2005.

SCHMITT, A, Cunha, E, Pinheiro, J. (Ed.) Forensic Anthropology and Medicine: Complementary Sciences from Recovery to Cause of Death. Tottowa. Human Press.

UBELAKER, D. H. Human Skeletal Remains, Excavation, Analysis, Interpretation. 2ª ed. Washington, DC: Taraxacum, 1989.

 

Atendimento
Precisa de ajuda?