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As múltiplas personalidades em Norman Bates

Em 1959, Robert Bloch publicava o livro Psicose, obra que viraria filme com o mesmo nome no ano seguinte pelas mãos do cineasta Alfred Hitchcock e um grande marco para os filmes/livros de horror na cultura pop.

A história se inicia com a secretária Marion Crane, quando a mesma furta uma grande quantidade de dinheiro da empresa em que trabalha e foge para se casar com o namorado. Após uma longa viagem de fuga, para no Motel Bates, onde é recebida pelo filho da proprietária, Norman. Em um jogo de sombras e silhuetas, pela janela ou sentada em sua cadeira de balanço, vemos essa mãe (que por acaso se chama Norma) como uma mulher controladora e com cuidados extremos sobre o filho, mostrando insatisfação mesmo ao simples fato de Norman jantar com a hóspede.

A primeira reviravolta ocorre já na metade do enredo, quando Marion, que julgávamos ser a protagonista, é assassinada por Norma com várias facadas enquanto tomava banho, em uma das cenas mais memoráveis do cinema. Mas Bloch, ainda nos presentearia com mais plot twist, pois Norma está morta desde o início e seu filho, Norman, apresenta personalidades múltiplas.

Sobre isso, pode-se evidenciar que a construção para esse personagem foi inspirada no assassino em série de Wisconsin, da década de 50, Ed Gein, que além da sua relação extremamente próxima com sua mãe (beirando um Complexo de Édipo), tinha como um dos seus prazeres a confecção de “roupas” que possuíam como matéria-prima a pele de suas vítimas. Em Norman, isso ocorre de maneira metafórica na medida em que ele “veste-se com a pele de sua mãe” ao se apresentar com essa segunda identidade.  

Com base nesses aspectos, e segundo a quinta edição do Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais da Associação Americana de Psiquiatria (DSM-5), o Transtorno Dissociativo de Identidade ou TDI se apresenta como uma “ruptura da identidade caracterizada por dois ou mais estados de personalidade distintos [...]. A ruptura na identidade envolve uma descontinuidade acentuada no senso do Eu e no senso de controle, acompanhada de alterações relacionadas no afeto, comportamento, consciência, memória, percepção, cognição e / ou funcionamento sensório-motor”.

Tudo isso se expressa em Norman através desse “alter ego materno”. Ao assumir essa identidade, ele passa a usar as roupas da mãe e, portanto, a agir como ela. Essa nova percepção da realidade leva Norman a “justificar” o assassinato de Marion, pois não foi ele que o cometeu, mas sim sua mãe, situação que ele acredita de fato. Através de alterações de consciência e episódios de amnésia, faz-se evidente que durante as crises, o personagem não conseguia fazer a distinção entre o real e o imaginário e, logo, entre o certo e o errado.

Além disso, podem ser observadas experiências sensoriais, que sugerem alucinações de caráter auditivo e/ou visual, exemplificadas pelas conversas com sua mãe, ou mesmo um processo de desrealização, apresentado por uma percepção alterada da realidade em que o personagem se insere, ao aceitar como verdadeira a ideia de que sua mãe está viva e bem.

Apesar da complexidade do diagnóstico, a história de Norman se encerra justamente nesse ponto: com um psiquiatra usando do quadro clínico descrito para definir o TDI do personagem. Com Hitchcock, o “gran finale” traz certa dúvida para os espectadores: o que foi mostrado no filme reflete uma vivência real ou foi apenas fruto da psicose de Norman?

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