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CARACTERIZAÇÃO DE VESTÍGIOS DE SOLO

Vestígios de solo são comumente encontrados em locais de crime e, quando bem processados, podem conferir informações muito importantes a cerca da dinâmica do fato investigado. Infelizmente, esse tipo de análise de caracterização física, química e mineralógica do solo do local de crime ou de amostras de solos encontradas em sapatos, pneus, dentre outros, ainda é bastante tímida nos laboratórios de criminalística do Brasil - seja por carência dos equipamentos necessários, seja pela carência de um profissional especialista na área. 

No presente artigo, relato um estudo de caso que desenvolvi na cidade de João Pessoa durante a Pós-graduação em Perícia Criminal e Ciências Forenses. A situação foi a seguinte: um crime fora simulado em um ponto da cidade - ponto 8. Neste local, foram encontrados alguns vestígios, dentre eles, uma bota de número 37, pé direito, impregnado de solo úmido. Assim, inicialmente, foram coletadas três amostras de solo: uma da bota e duas do local de crime (ponto 8.1 e 8.2 - duplicatas separadas por distância de um metro).

Em seguida, foram coletadas outras 14 amostras, de diferentes bairros da cidade de João Pessoa (zonas Norte, Sul, Leste e Oeste), a serem contestadas com a amostra-padrão. O principal objetivo era avaliar se as técnicas de caracterização utilizadas seriam suficientes para incluir a amostra-padrão (retirada da bota) no local de crime (ponto 8) e, ao mesmo tempo, excluí-la dos outros 14 pontos questionados. 

Foram realizados os seguintes ensaios de caracterização: 

  • Análise granulométrica à laser
  • Análise termogravimétrica (TG)
  • Difração de raios-X (DRX)
  • Fluorescência de raios-X (FRX)
  • Microscopia eletrônica de varredura (MEV) 

As análises mencionadas acima geraram ao todo 85 gráficos/imagens, com diversos resultados - a cerca da granulometria; da composição química; dos óxidos presentes; da cristalinidade; da matéria orgânica; das impurezas; da morfologia dos grãos, entre outros. Esses resultados foram comparados, um a um, cada qual com sua informação de relevância, entre a amostra-padrão (8) e as contestadas. 

Por fim, após todos os estudos comparativos, foi possível chegar a uma conclusão: a amostra de solo retirada da bota era COMPATÍVEL com a amostra coletada nos pontos 8.1 e 8.2 (local de crime simulado) e INCOMPATÍVEL com as amostras retiras das demais áreas. Ou seja, o binômio padrão x contestado foi, definitivamente, elucidado. Esse resultado seria de suma relevância para a perícia; serviria como mais uma evidência a vir sustentar e dar robustez ao laudo pericial!

Muito mais pode ser explorado sobre o tema! Imagina um mapeamento, a cada metro, das zonas de risco de nossa cidade, gerando uma espécie de banco de dados com características de cada tipo de solo?! O céu é o limite para a ciência! Avante!

Obs: os gráficos dos ensaios e demais discussões de ordem técnico-científica serão apresentadas em trabalho a ser divulgado a posteriori.