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Cobrir ou não cobrir, eis a questão.

É comum o perito criminal chegar no local do crime e o cadáver estar coberto, seja por um pano, lençol, cobertor, etc. Os agentes de segurança pública responsáveis pelo isolamento e preservação do local, que chegam antes dos peritos criminais, muitas vezes informam que o cadáver já estava coberto antes mesmo de eles chegarem. Outros dizem que cobriram o cadáver para acalmar os ânimos da população e preservar a imagem do indivíduo morto.

Mas este é um procedimento correto?

Vamos a alguns pontos importantes.

Desde o momento em que um crime ocorre até a chegada dos peritos criminais, algum tempo se passa. E nesse tempo, muitas coisas acontecem. O ideal seria que, assim que o crime tivesse ocorrido, o local fosse “congelado” para então ser examinado pelos peritos. Mas sabemos muito bem que não é isso que ocorre. Na maior parte das vezes, devido a alguns procedimentos operacionais, a “perícia demora para chegar”. E isto ocorre porque os peritos são sempre os últimos a serem acionados. Quanto maior o tempo entre a ocorrência do crime e o início dos exames periciais, maior a probabilidade de vestígios importantes serem perdidos e vestígios ilusórios (aqueles que não tem relação com o crime) serem incluídos na cena do crime.

No momento em que qualquer pessoa inclui, posteriormente, na cena do crime, um objeto que não estava ali no momento em que ocorreu o delito, este será um vestígio ilusório que poderá interferir na definição da dinâmica do evento. Logo, cobrir um corpo é adicionar um elemento que não fez parte da dinâmica do crime ocorreu.

Muitas vezes, o cadáver é coberto por um lençol ou um cobertor fornecido por alguém que mora nas proximidades de onde ocorreu o fato. Este objeto, contendo vestígios como pelos, cabelos, salivas, etc, adicionará informações não relacionadas ao crime, o que vai prejudicar a análise do local.

O melhor, para o exame pericial, seria deixar o corpo exatamente como foi encontrado pela primeira vez, sem acrescentar ou retirar nada.

Porém, na prática não é tão simples assim.

Fatores como chuva e vento podem prejudicar também os vestígios que se encontram no cadáver e em suas vestes. Também deve-se levar em condição o fator humano: a exposição do cadáver em uma via movimentada pode atrair mais curiosos e pode gerar uma comoção pública que, dependendo da proporção, pode alterar totalmente a cena do crime. Neste caso, cobrir o cadáver pode até ser a melhor forma de preservar a cena do crime. Os agentes responsáveis pelo isolamento e preservação muitas vezes precisam tomar decisões rápidas e eficazes em questão de segundos.

Concluindo:

- Se puder, evitar cobrir o cadáver, mantendo a cena exatamente como estava no momento em que o crime ocorreu.

- Se tiver que cobrir, para melhor preservar o cadáver e a situação local, que o faça com um objeto que não tenha sido utilizado antes e que não vá conter outros vestígios, como um saco de lixo não utilizado anteriormente, por exemplo.