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Crianças malvadas: falando sobre a psicopatia infantil

A priori, não podemos atribuir a uma criança a condição de transtorno de personalidade antissocial, pois seria um diagnóstico muito precipitado. O que poderíamos colocar é que a criança ao demonstrar os primeiros traços relacionados à psicopatia se associaria ao um desvio de conduta que fugiria aos comportamentos característicos infantis. Para um diagnóstico mais preciso, o ideal seria aos 20 anos quando o cérebro estaria, digamos, mais amadurecido.

Por incrível que pareça, os traços psicopáticos podem surgir com apenas 2 anos de idade. Os mais comuns nessa tenra idade seriam a superficialidade das emoções, falta de empatia, temperamento exacerbado e irritabilidade. Apesar da personalidade de uma criança não estar totalmente formada, o temperamento já é possível determinar, pois há o fator genético que não se modificaria.

Em termos orgânicos, é possível realizar um exame denominado PET scan, também conhecido como tomografia computadorizada por emissão de pósitrons, em que há a possibilidade de mostrar os hemisférios do cérebro, direito e esquerdo. Em uma criança que está apresentando traços psicopáticos, a zona límbica situada no córtex medial pré-frontal, hemisfério esquerdo do cérebro associado às emoções não apresentará atividade ou muito pouco, ficando então na cor azul. Em pessoas que não possuem esses traços, a zona límbica estará em vigorosa atividade, ficando então na cor vermelha. Este seria um exame bastante indicativo de psicopatia.

Segundo uma pesquisa da Associação Brasileira de Psiquiatria (ABP), cerca de 3,4% das crianças apresentam problemas de conduta como mentir, brigar, furtar e desrespeitar. Contudo, nem sempre estas características formarão futuros psicopatas, pois estes elementos fazem parte de nosso psiquismo, como o componente instintual, característico dos impulsos mais primitivos relacionados às nossas pulsões de preservação e conservação da vida. E como a criança ainda não desenvolveu elementos para pensar de modo mais reflexivo, racional e ponderado, ela vai utilizar primeiro os instintos tanto para se defender, quanto para atacar.

Agora, existem um conjunto de  traços formativos psicopáticos muito delineados que geram um alerta para as famílias como maus-tratos a animais com demonstração de alegria ao ver o sofrimento; tortura e humilhação aos irmãos, manipulação dos pais, mentiras constantes, tendência a provocar conflitos no seio familiar; impulsividade e irritabilidade, muitas vezes a criança tem acessos de fúria e reage as situações aos berros; desinibição, sedução e interesse sexual intrusivo e precoce demonstrando curiosidades que não condizem com sua idade, como querer ver as genitais de outras pessoas e mexer nas roupas íntimas. Também ausência de medo, tendem a subir facilmente em árvores, escalar muros, pular de alturas consideráveis sem temer. Brincar com fogo e queimar coisas também são práticas recorrentes.

Para estas crianças, a possibilidade de desenvolver sentimentos nobres é nula. Outras emoções existem como a raiva ou a frustração quando os seus planos não dão certo. Mas não passa disso. Ela não sentirá amor, altruísmo, valores afetivos de amizade e fraternidade, compaixão.  É incapaz de sofrer com a dor do outro, na realidade gosta dessa sensação. E esta é a diferença principal entre uma criança potencial psicopata e outra que não é. A capacidade de sentir prazer e satisfação só virá fazendo coisas ruins. Isso tudo é um quadro muito triste. A vida desta criança sempre será assim e não importa o que se faça.

No ambiente escolar e no seio familiar, qualquer criança “normal” precisa de limites e disciplina, pois estes elementos modularão o caráter ao longo do tempo, apontando o certo e o errado, a liberdade e o respeito ao próximo. No entanto, numa criança psicopata a disciplina e a interdição servirão mais como estratégias de contê-la, de condicioná-la, do que realmente educá-la para os valores morais da sociedade que a ajudará a se constituir em um ser humano íntegro. Ela não aprenderá pelo fato de dizer “não”, nem pela imposição de regras. Na verdade, ela só deixará de fazer algo impróprio ou ruim se houver uma consequência, uma punição e não porque aprendeu com os erros ou é errado fazer. A punição pelas consequências de seus atos para ela somente irá impedi-la de realizar algo, não irá fazê-la refletir sobre o mal que causou. Para ela isso não funcionará.

Para uma criança assim, crescer num ambiente seguro e amoroso é fundamental. No entanto é primordial a constante vigília, principalmente quando esta criança está em companhia de outras, é preciso cuidado, cautela. Podemos trabalhar com relações e habilidades sociais, porém seu temperamento digamos “difícil” não será afetado e os traços psicopáticos certamente ganharão mais corpo na fase adulta.

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