Artigos

O que a psicanálise tem a nos dizer sobre a perversão?

Na linguagem do senso comum, o sujeito considerado perverso é mau, cruel, impiedoso, desumano. Este conceito de perversidade é extremamente válido do ponto de vista cotidiano para caracterizar uma pessoa ruim, que age sem pudor ou caráter na sociedade.

Em psicanálise há diferenças conceituais para delimitarmos a perversão.

Em breves escritos podemos dizer que o conceito de perversão é o desvio do encontro genital. São atalhos, mudanças de curso em que o prazer sexual se encontra em outras relações objetais, como por exemplo, plantas, roupas íntimas, sapatos, pés, objetos introjetados no ânus, mexer nas orelhas, excreções (fezes, urina), relações homoafetivas (são descritas na literatura freudiana enquanto desviantes do natural), cintos e chicotes, mordaças, vestir-se como um personagem ou como outra pessoa, entre outros. Existem uma variedade de fetiches e parafilias enquanto atos relacionados ao prazer sexual, cuja força libidinal está fixada em objetos diferentes daquilo que se colocaria enquanto a norma do sexo. São incluídas também a estas perversões os sujeitos se excitam com crianças, animais, cadáveres, transgêneros.

A perversão também está nas relações masoquistas, quando o prazer está em provocar dor em si mesmo e em relações sadistas, quando o prazer está em provocar dor, sofrimento e humilhação no outro, incluindo estupros. Há outras fixações como o sujeito que só quer olhar, a prática do voyerismo, e aquele que faz sexo em lugares onde seja possível os outros olharem, a prática do exibicionismo.

O psicopata abusador, fetichista é considerado um sujeito perverso pois é um desviante da norma sexual, mas não da norma jurídica, ou seja, não há o menor ressentimento em provocar angústias em outro sujeito já que ele está obtendo o seu prazer, a sua estimulação, seu gozo. Em uma criança, por exemplo, o psicopata pedófilo não acredita que o abuso sexual infantil provocará alterações drásticas e devastadoras na vida psíquica da criança pelo resto de sua vida. Para ele é mais um objeto de gozo. Ele nada sente, nem piedade, nem nojo, nem culpa, nem remorso.

O psicopata enquanto sujeito narcisista faz com que o indivíduo dominado por ele não consiga viver sem sua presença. Ele é quem dá sentido à vida do outro. A união. A razão para existir uma relação. Há também ameaças de morte ou punição feitas diretamente para o sujeito que está sofrendo abuso ou, ainda, para atingir algum parente ou amigo da vítima. Em crianças, é muito comum o abusador ameaçar de morte seu animal de estimação ou irmão menor. Tudo isso faz com que a vítima fique encurralada nesta situação, demore muito para procurar ajuda ou, ainda, nunca conte o que está acontecendo.

Em suma, a perversão sob a ótica psicanalista caracteriza uma curva que desvia a pulsão libidinal para outras fontes de prazer que poderíamos considerar no mínimo exóticas e incomuns. Embora a perversão também abranja sujeitos psicopatas, principalmente serial killers, também envolve outros tipos de indivíduos que não apresentam traços psicopáticos e que somente buscam maneiras diferenciadas de prazer que não necessariamente estariam cometendo crimes ou contravenções. Contudo, cabe ressaltar que, no caso específico de pedófilos, sujeitos que praticam zoofilia, necrofilia, exibicionismo em lugares públicos onde o sujeito mostra os genitais, sadismo (sem o consentimento/aval da pessoa) estão, perante a lei, agindo em delinquência.

De acordo com o Código Penal, é preciso estudar a conduta sexual de cada indivíduo de modo particular, pois deve-se considerar que os atos libidinosos podem ser praticados por pessoas consideradas “normais” do ponto de vista da doença mental. Ou seja, às vezes, em determinadas circunstâncias os delitos sexuais foram impulsionados pelo abuso de drogas (lícitas ou ilícitas). Neste caso podem haver ressalvas. Cabe enfatizar que nem sempre os delitos sexuais são em maior frequência cometidos por sujeitos perversos. A impulsividade do perverso em um grau mais próximo ao patológico seria sim, neste caso, um fator preocupante para a sociedade. Os delitos sexuais mais comuns são: violação, abuso sexual imposto, estupro, abuso sexual de menores, exibicionismo, sadismo.

Fechando então nosso pensamento: todo sujeito fetichista é um perverso pelo seu componente desviante. Porém nem todos são criminosos ou delinquentes em suas parafilias.

Atendimento
Precisa de ajuda?