Artigos

Os serial killers do tipo organizado na cultura pop

Devido aos inúmeros filmes e séries do gênero investigativo, fomos habituados a conhecer a personalidade psicopática através dos tipos mais sanguinolentos possíveis. São aqueles que acordam em um belo dia das bruxas e decidem matar todo o bairro, ou que fogem de um hospital psiquiátrico e voltam para vingança no acampamento em que sofriam bullying. O conceito de assassino em série, no entanto, é muito mais complexo do que a indústria cinematográfica nos apresentou no passado, especialmente se considerarmos o modus operandi do tipo organizado e de que formas isso se manifesta.

Apesar de não existir uma regra geral para definir os serial killers, o FBI destaca que três elementos devem ser observados para sua caracterização: a quantidade de mortes, o lugar e o tempo. Dessa forma, deve haver ao menos três homicídios, realizados em locais diferentes e com certo “período de calmaria”, ou seja, com um intervalo entre uma morte e outra (que pode ser de poucas horas ou mesmo alguns anos).

Já o modus operandi, de forma básica, está relacionado ao modo de agir do homicida, que pode sofrer alterações, conforme ele ganha confiança ou torna seus métodos mais “sofisticados”.  E é exatamente essa atuação que vai dividir os serial killers em desorganizados e organizados. Os desorganizados são aqueles que agem por impulso, é o caso de Michael Myers, em Halloween (1978), ou do Letherface, em O massacre da serra elétrica (1974).

Os criminosos organizados, por sua vez, buscam o crime perfeito, pensado em detalhes, e por conta disso costumam construir uma imagem social de “cidadão modelo”. Dentre os pontos que podem ser observados nesse tipo de transgressor, Ilana Casoy ressalta um fraco por profissões que o destaquem como macho, como motorista de caminhão, barman, policial ou paramédico.

Casoy nos mostra isso através do livro/série Bom dia, Verônica, escrito também por Raphael Montes, com o personagem Cláudio Brandão, policial militar e assassino em série nas horas vagas. Brandão também é casado e tem uma importante mulher nas suas relações, situação que ajuda a passar essa ideia de “vida normal”.

Além disso, esses criminosos possuem inteligência média para alta, que os leva a agir de forma metódica, com uma cena de crime controlada e planejada, no maior estilo Dexter Morgan (da série Dexter). Por trabalhar como especialista forense, seus locais de crime recebiam um cuidado quase que pericial para que nenhum vestígio fosse deixado. Dexter também não se utilizava de armas ocasionais, carregava seus próprios instrumentos, e os levava embora depois de cometido o assassinato.

Outra figura que ganhou destaque na cultura pop, pelos inúmeros documentários, livros e filmes sobre ele, foi Ted Bundy. Bundy foi um legítimo serial killer americano da década de 70, condenado pelo assassinato de 36 mulheres jovens. Dentre algumas características que o enquadram como um criminoso do tipo organizado, podemos observar sua escolha por vítimas que seguiam um padrão: estudantes universitárias brancas e com cabelos longos e lisos repartidos ao meio. Nos desorganizados, essas vítimas costumam ser escolhidas de forma aleatória.

Ademais, um ponto comumente verificado nos transgressores organizados é a boa aparência, também observada em Ted Bundy. Além de sorridente e bem arrumado, ele costumava utilizar gesso no braço ou muletas para parecer inofensivo e assim atrair as mulheres para o seu carro, que o ajudavam carregando livros. O filme mais recente sobre Ted é de 2019, denominado A irresistível face do mal.

Outro aspecto que pode estar associado a esses criminosos é a mudança de local dos corpos, assim como seu desmembramento, situações que dificultam a identificação das vítimas e, consequentemente, o trabalho da polícia. Exemplo disso é Edmund Kemper que, entre 1972 e 1973 assassinou 8 pessoas nos Estados Unidos. A lista de locais em que (partes) dessas pessoas foram encontradas inclui o oceano, um armário e o próprio quintal de sua mãe. Kemper foi retratado mais de uma vez na série Mindhunter.

Conforme exposto, diversos critérios podem definir um assassino em série como organizado ou não. Vale lembrar que a ausência de alguns dos elementos citados não descaracteriza o modus operandi, que deve ser analisado de maneira geral. Felizmente, a indústria cultural parece estar em consonância com os estudos na área, nos proporcionando entretenimento cada vez mais condizente com a realidade. 

Atendimento
Precisa de ajuda?