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Você já ouviu falar em folie à deux?

Vamos lá. Cunhado no ano de 1877 por dois psicólogos franceses chamados Fabret e Lasèque, folie à deux recebeu diversas traduções, tais como: loucura a dois, insanidade dupla, insanidade recíproca, loucura coletiva.

Trata-se de um raro fenômeno psicológico envolvendo duas ou mais pessoas intimamente relacionadas, porém nem sempre são da mesma família, mas pode acontecer, que compartilham do mesmo distúrbio psicótico (delírios, caráter persecutório, paranoia). Um caso que ficou bem conhecido ocorreu com duas irmãs de meia-idade no ano de 1930, no qual elas estavam convictas de estarem sendo chantageadas por um famoso artista de uma determinada emissora de rádio, inclusive elas afirmavam que ele ficava as ameaçando com mensagens codificadas disseminadas nas canções que divulgava em sua programação.

Outros dois casos bem famosos são dos assassinos em massa Eric e Dylan, ocorrido em 1999 na Columbine High School, ficando conhecido como o Massacre de Columbine. E no Brasil, o caso da escola Raul Brasil, pelos assassinos Luiz Henrique e Guilherme no ano de 2015. Ambos os acontecimentos têm o mesmo perfil: jovens atiradores que desferem tiros aleatórios matando diversas pessoas, para logo em seguida, tirarem a própria vida. Outro caso parecido, porém, de dois assassinos relâmpagos no ano de 2002, conhecido como os “Atiradores de Beltway”.

Como dissemos, este diagnóstico é considerado raro e, atualmente, o termo é utilizado com mais frequência para descrever algo ligeiramente diferente: não uma fantasia paranoide compartilhada, mas sim uma combinação nociva e periculosa entre duas pessoas que, juntas, fazem sobressair o pior de cada uma, incitando mutualmente a se comprometer e levar adiante práticas criminosas, delinquentes, que numa perspectiva individual, não teriam audácia suficiente para realizar os feitos sozinhas. E isso se daria por diversas razões: capacidade de planejamento e execução, habilidades específicas, formular estratégias, coragem suficiente para se colocar em risco.

Geralmente, nos casos de folie à deux, há um cabeça pensante, dominante, articulador, instigador e planejador dos crimes. O outro é um cúmplice entusiasta, submisso, cumpridor das tarefas e atento às regras. Há outros casos que ocorreram ao longo da história com bem menor frequência envolvendo trios (folie à trois) e quartetos (folie à quatre). Cabe ressaltar, que o termo aqui em evidência só caberia a potenciais assassinos, que embora propensos ao crime, não o fariam se não estivessem sendo encorajados por um parceiro entusiasmado.

Contando mais alguns casos: Leopold e Loeb na década de 1920, mataram um conhecido de 14 anos apenas com o objetivo de provar que eles conseguiriam cometer um crime perfeito.

Pauline Parker e Juliet Hulme, adolescentes da Nova Zelândia, que mataram a mãe de Pauline a pauladas em 1954. Esta história chocante serviu de inspiração para o filme Almas Gêmeas, de 1994.

Gerald e Charlene, conhecidos como os Gallego, se juntaram para fazer algo incrivelmente doentio, como se já não bastasse os outros casos citados: com o objetivo de apimentar a vida sexual, dirigindo uma van, eles saíam a procura de vítimas, geralmente jovens, com a proposta de oferecer drogas de graça. Uma vez que as vítimas caiam na conversa de Charlene, as vítimas eram levadas para um local isolado, abusadas sexualmente pelos dois e logo em seguida eram assassinas e descartadas.

Outra parceria que segue o mesmo perfil de depravação são Angelo Buono e Kenneth Bianchi, conhecidos como os “Estranguladores da Colina”. Fazendo se passar por policiais, eles atraiam mulheres desavisadas até o carro e as raptavam para levar a casa de Buono. Os corpos nus e violentados sexualmente das vítimas eram descartados com frequência nas colinas arborizadas no entorno da cidade de Los Angeles.  Eram encontradas estranguladas e torturas de diversas formas: com injeções contendo produtos de limpeza, queimadas com fios elétricos ou asfixiadas e, às vezes, objetos como garrafas eram introduzidos.

Existem casos de folie à famille em que o interesse mórbido por tortura e assassinato vão além da relação puramente grupal, o vínculo é realmente sanguíneo. Um lendário clã de assassinos foi uma tribo datada do século XV liderada por Sawney Beane. Nascido durante o reinado de James IV da Escócia, o atroz e maligno Beane e sua amante fugiram da sociedade civilizada e foram se refugiar numa caverna na costa de Galloway, onde geraram uma numerosa família com cerca de 40 membros, muitos deles frutos de relações incestuosas. Seu principal alimento era carne humana, então além de fazer inúmeras vítimas, eles as canibalizavam e, inclusive, serviam de forragem para a família toda. As pobres vítimas masculinas sangravam até a morte enquanto as mulheres assistiam, para depois, elas serem jogadas ao fogo.

Em 1960, pavorosos assassinatos ocorreram perpetrados por um grupo que ficou conhecido como família Manson. Na verdade, não eram realmente parentes, apenas um grupo de lunáticos tidos como hippies, que incitaram uma verdadeira carnificina. O grupo assassinou sete pessoas no ano de 1969 com requintes de crueldade, num dos mais bárbaros crimes da história dos Estados Unidos.

Pois é, crimes cometidos por duplas, trios, quartetos, grupos e até por famílias inteiras são temperados com grandes pitadas de loucura e um grande potencial enriquecido pela cumplicidade. Como diriam: “duas cabeças pensam melhor que uma”, ou ainda, “a união faz a força!”.

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